Grupo FAMA Nova Iguaçu

fama

FAMA

O grupo Fama é uma escola livre de teatro que soma em sua estrada 15 anos. Formada em 2001 por Alexandre Gomes, foi criada com o intuito de investir, como o próprio comenta, em talentos dos atores da região de Nova Iguaçu. A escola é uma ONG que funciona em um espaço alugado no centro da cidade.

O grupo FAMA foi o terceiro grupo da sequência de residências do segundo semestre. Foi uma experiência muito importante para o Projeto, uma vez que o FAMA lotou com seus alunos e integrantes a sala de ensaios do sexto andar. Eram vozes altas, alegres, hiperativas, jovens com olhares curiosos e abertos para a troca. O encontro se iniciou com uma apresentação em PowerPoint que contava um pouco da história e da formação do grupo. Com uma atuação consistente no Município de Nova Iguaçu, o FAMA se destaca por ser um grupo com um espaço fixo e com uma trajetória sólida em formação de atores na cidade. O FAMA possui duas divisões importantes: a escola FAMA e o grupo FAMA. A escola tem uma pedagogia baseada em etapas de formação. Os professores que dão aulas na escola foram alunos e passaram pelo mesmo processo. A primeira formação consiste no módulo fundamental, que possui a duração de em média 3 a 6 meses e é uma primeira entrada ao universo teatral. A segunda é denominada Vocacional e possui a duração de 6 a 8 meses. É um processo mais aprofundado e de pesquisa. O terceiro consiste em um envolvimento maior do aluno e é um processo de formação que tem a duração de aproximadamente um ano e meio.

Além da escola e do grupo é realizada a atividade Intercâmbio na Fábrica onde artistas são convidados a passar uma tarde na escola para ministrar palestras, oficinas e bate papos. O espaço FAMA também possui um café literário que era um espaço ocioso e que foi transformado em um espaço de leitura e em uma minibiblioteca. O grupo também é idealizador do Festival Circuito Mix de Esquetes que foi realizado durante 7 anos pelos integrantes do grupo e movimentou culturalmente o município. A última edição, realizada em 2012, teve como tema o seguinte mote: “Valorizando nossas raízes, homenageando a vanguarda Brasileira”. Foi um festival grande que integrou não somente o espaço FAMA mas também as instalações do SESC e a rua. Após esta edição do festival o grupo decidiu suspender a atividade pois o evento demandava muita produção e depois de refletirem bastante chegaram à conclusão de que as pesquisas de linguagem do grupo estavam estagnadas e precisavam ser recuperadas e desenvolvidas. Em 2015 foi inaugurada a Sala de Espetáculos Amir Haddad em homenagem ao artista que já colaborou diversas vezes com o grupo.

O espaço FAMA é feito pelos alunos que tomam para si a escola como um lugar de afeto e acolhimento de identidades. Às vezes é difícil compreender o limite entre a escola e o grupo pois ambos se afetam e estão em constante diálogo alimentando um ao outro. Os elencos das peças de repertório do grupo são formados através de testes com alunos da escola e convites para os mesmos, que porventura podem ser feitos de acordo com a demanda e necessidade do grupo. A sala de espetáculo e o espaço literário também foram construídos pelos alunos e pelos integrantes do grupo. A manutenção do espaço é realizada por todos. Durante a residência na UNIRIO estavam presentes integrantes do grupo e alunos de diferentes etapas da escola o que também gerou para o grupo um entrosamento de trabalho diferente.

O grupo conta cinco espetáculos em seu repertório: Construção, Mágico de Oxente, Pantito, Falar da Baixada, que se apresentou na UNIRIO durante o FITU – Festival Integrado de Teatro da UNIRIO, e o mais recente Ricardo III – um homem do seu tempo. É sobre este último que foi baseado o encontro conduzido pela professora da UFRJ convidada, Larissa Elias. Larissa comentou que também está estudando e desenvolvendo uma pesquisa sobre a mesma peça de Shakespeare, na qual se baseia o espetáculo do grupo, e que seria ótimo poder fazer um encontro em que pudesse trazer a peça à tona. O encontro conduzido por Larissa foi uma experiência de entrega e ultrapassagens. O grupo era de aproximadamente 40 pessoas e ela propôs que a partir da memorização de alguns trechos, selecionados por ela, da peça Ricardo III e de uma canção aleatória escolhida individualmente, um trabalho de coro fosse realizado.

Larissa pediu que as pessoas se espalhassem pelo espaço de modo que a sala ficasse toda ocupada. Em pé e parados, ao receberem o comando de Larissa, os jogadores deveriam iniciar um movimento qualquer e os outros deveriam repeti-lo sem dirigir o olhar diretamente para a pessoa que iniciou o movimento, mas tentar reproduzir o movimento a partir dos gestos executados pelas pessoas que estivessem dentro do seu campo visual. Estes exercícios duraram duas horas ininterruptas. Larissa não interrompia o fluxo de movimentos. Ela provocava, como um maestro de uma orquestra, sussurrando no ouvido de algum participante algumas informações adicionais que modificavam o andamento do exercício. Entre troca de músicas, troca de movimentos, troca de líderes, o texto da peça Ricardo III foi desconstruído, sonoramente recriado, gestualmente ampliado. Os movimentos óbvios foram sendo desgastados e após algum tempo pudemos presenciar um caos organizado, uma lógica de diversos coros em um mesmo espaço fazendo ações distintas, mas que se interligavam por uma lógica organizacional própria. Parecíamos estar diante de um quadro de guerra, onde a imagem remete a uma fotografia de um instante, breve e rápido em que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo. Era como se pudéssemos apertar a tecla play e olhar a imagem em movimento contínuo.

O exercício do coro tem a potência de revelar diferentes pontos de vista, diferentes percepções, não há neste exercício uma homogeneidade, algo que exerça uma centralização embora o movimento tenha se iniciado por uma pessoa ou por mais de uma pessoa. Cada um toma para si o movimento e o faz a sua maneira. Larissa como um marionetista coordena apenas os impulsos básicos dos jogadores para que o fluxo continue. Ao mesmo tempo, interessante observar de onde nasce um movimento e como ele reverbera e se transforma. Este encontro foi também o último da série de residências realizadas durante o ano e demonstra, de certo modo, um alinhamento com o perfil da própria estrutura do projeto: em movimento e em transformação.

Ana Kailani Guimarães

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