Companhia de Arte Popular de Duque de Caxias

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COMPANHIA DE ARTE POPULAR

Na tentativa de olhar mais atentamente para o termo “residência artística” com o qual nomeamos os nossos encontros este ano, busquei o significado da palavra residência segundo o dicionário Aurélio.

Significado de Residência

1 – Morada habitual num lugar, domicílio.
2 – Casa onde se reside, morada.
3 – Casa de habitação dada pelo governo, autoridades locais ou corporação, para certos funcionários residirem, enquanto exercerem as suas funções na localidade.
4 – Habitação do pároco.

A cia de Arte Popular foi o terceiro grupo a participar da pequena residência artística realizada pelo projeto de extensão Artes Cênicas em Extensão, no âmbito dos Seminários de Estudos Teatrais, uma das ações do Projeto. Os Seminários passaram por formatos diferentes desde 2014, primeiro ano do projeto. Em 2014 os conteúdos articulavam as práticas cênica e reflexiva que envolvem o fazer teatral. Em 2015 os participantes conheceram a dramaturgia e o pensamento de Bertold Brecht (2015.1) e Augusto Boal (2015.2). Em 2016 os Seminários aconteceram aos sábados, quinzenalmente, e os conteúdos foram propostos pelos grupos de teatro parceiros do projeto, de modo que houve uma troca de saberes e práticas artísticas mais efetiva entre esses grupos. Os encontros aconteceram de quinze em quinze dias, então foram doze durante o ano de 2016: dois em abril, dois em maio, dois em junho, dois em setembro, dois em outubro e dois em novembro. Cada mês foi ocupado por um grupo de teatro. Nós chamamos essas ocupações de residências artísticas das companhias na UNIRIO. Nos primeiros encontros de cada mês as atividades foram propostas pelos integrantes de cada um dos seis grupos que participaram das residências. Nos segundos encontros de cada mês contamos com a colaboração de convidados, que fizeram propostas de atividades a partir dos trabalhos artísticos de cada grupo.

É a partir desse formato que falarei um pouco agora da residência da Companhia de Arte Popular. O grupo começou com um breve cortejo para entrar na sala 602 da Escola de Teatro da UNIRIO. Suas vozes tomavam toda a sala. Embora já conhecêssemos seus integrantes, ao entrar na sala com o cortejo, aqueles corpos habituais que eu conhecia estavam dilatados e com muita presença. Eu pude presenciar uma espécie de ritual, o cortejo foi como um iniciador de tudo que viria em seguida, um ritual de início. O grupo possui uma integração e um espírito de coletividade que víamos refletidos na maneira como as atividades eram conduzidas, a cada momento levada por algum dos integrantes. A residência seguiu com uma breve apresentação da história da Companhia e se desdobrou em uma demonstração coletiva do trabalho que eles realizam na companhia. Exercícios comandados pela Nancy Calixto e pelo Cesário Candhi, que tinham o objetivo de expandir o corpo e potencializar o encontro com o outro, foram realizados. Ao som de um baião a condução incitava a uma dança pelo espaço e, depois, com um parceiro e, por fim, algumas palmas davam o sinal de pausa dos movimentos. Depois, em roda, alguém deveria fazer o deslocamento para outro lugar da roda estabelecendo o contato visual e explorando o corpo durante este deslocamento. Foi um encontro composto por diversos aspectos: assistimos a uma apresentação de um trecho da peça A incrível Peleja de Simão e a Morte, fizemos exercícios de ritmo conduzidos pelo Beto Gaspari, exercícios de corpo e construção coletiva de cenas. A última atividade proposta consistia em dois grupos que deveriam, ao receber a frase “Rapadura é doce mas não é mole”, desenvolver uma cena.

Pensar a residência do ponto de vista da morada habitual é fazer da UNIRIO um lugar de pertencimento, um lugar onde nos sintamos em casa. Rosyane Trotta foi a professora convidada para dialogar com a Companhia de Arte Popular e, em seu encontro, foi proposto que todos os grupos encaminhassem antecipadamente por e-mail os seus projetos de espetáculos, para que ela pudesse analisar o modo como os grupos se apresentam. No encontro ela fez comentários sobre cada projeto e tocou em um ponto fundamental sobre a identidade de um grupo e de uma companhia, que é a importância de os grupos mostrarem a sua “cozinha”, o seu processo de criação, não só o produto pronto e como ele foi feito, mas também, o que não deu certo, o que deu certo, os ingredientes utilizados, os materiais e as ferramentas. Faço esta reflexão, portanto, a partir de um pensamento sobre a palavra residência e de uma provocação feita pela Rosyane: o lugar da residência traz a importância de colocarmos a cozinha em foco, de colocarmos para fora os nossos processos, de trazermos para um outro espaço a nossa casa e fazer desse espaço, mesmo que por um curto espaço de tempo, a nossa morada. Eu me incluo nesta reflexão pois faço parte de um grupo e participei de uma pequena residência realizada pela Companhia Marginal, na Maré, que contou com a participação de representantes de diversos grupos de teatro do Rio de Janeiro. Em encontros assim é possível perceber a força que pode haver na conexão, no fazer junto. Com esse encontro fomentamos parcerias e pudemos nos olhar e ver, a partir da trajetória do outro, o nosso caminho.

A Cia. De Arte Popular soma em sua história 19 anos de caminhada. Em seu percurso as montagens de diversos espetáculos, as transformações estéticas, as entradas e saídas de integrantes, culminaram até chegarem a uma linguagem própria que envolve música, oralidade e folclore, tendo como referências festejos populares, literatura de cordel e lendas. Seus integrantes atualmente são: Eve Penha, Cesário Candhi, Nancy Calixto, Beto Gaspari, Pedro Lages e Francisco Farnum. Localizada em Duque de Caxias, embora não possuam uma sede própria, se reúnem semanalmente na casa de algum dos integrantes para realizarem leituras, conversas e planejamentos. A vontade de fazer, a horizontalidade com que se estruturam dentro do grupo e o amor por suas produções são características marcantes da Companhia.

O que é o popular? O que é o povo? Existe uma identidade nacional? Essas perguntas me perseguem ao me ver diante do trabalho da Companhia de Arte Popular. Passei alguns meses refletindo sobre o que escrever. Discorrer sobre sua história me parecia um caminho, desenvolver uma reflexão a partir das histórias da companhia, também. Mas sempre que repetia o nome Companhia de Arte Popular, uma questão se levantava. Afinal, o que é o popular? Quando penso no trabalho da Companhia de Arte Popular e no que significa o “popular” neste contexto, imediatamente penso na literatura de cordel, na obra de Ariano Suassuna, em Pernambuco, no Nordeste. Vestidos floridos de chita, cores, mulheres dançando com saias rodadas, sotaques carregados e expressões faciais caricatas. O trabalho da Companhia de Arte Popular é baseado em traços marcantes de uma concepção de cultura popular nordestina.

A fim de compreender um pouco melhor de que maneira a Companhia articula o conceito de popular realizei uma entrevista com seus integrantes, que transcrevo logo abaixo. As perguntas, que foram enviadas pela internet, tinham o objetivo de me aproximar um pouco mais da concepção e do pensamento do grupo. As respostas foram elaboradas coletivamente, o que demonstra a sintonia que há entre eles. Interessante observar também que o grupo, embora tenha seus integrantes fixos, convida para as suas montagens diretores e novos atores. Essa rotatividade dá ao grupo uma abertura, uma brecha para novas trocas e permite que o grupo esteja constantemente em processo de renovação.

O que é o popular na concepção da Cia de Arte Popular?

As coisas cotidianas realizadas pelo povo e que o povo entende. Sem requinte, sem rebuscamento. O nosso popular é reprodução das histórias que ouvimos e/ou vivenciamos. Sentimos que acontece a comunicação porque falamos o que vem de toda gente e isso acaba voltando pra nós nesta mesma forma. Motocontínuo de comunicação. Somos todos nós, quando olhados no espelho de forma mais apurada, deixando a alma exposta. Nosso dia-a-dia, histórias e “causos”, tristezas e alegrias, glórias e percalços, sotaques e silêncios, lendas e festas.


Quais as referências do grupo que permeiam as criações da Cia?

Os cordéis, os contos populares, histórias passadas de geração em geração de forma oral, as canções populares, as festas e folguedos, as folias, os costumes populares, outros grupos de teatro, dança, circo e de música.
A cada projeto convidamos um diretor que é escolhido pelo grupo a partir da observação de seus trabalhos anteriores.

Ao ouvir os outros grupos falarem no projeto, percebo como é importante a conexão entre os grupos da baixada. O que é feito para que essa rede se fortaleça? E como a Cia. De Arte Popular entende a importância dessa rede?

As reuniões da Rede Baixada Encena; a troca de experiências entre os grupos; a proposta de ocupações de espaços culturais com estes grupos, como por exemplo a ocupação na Biblioteca Parque em maio deste ano, a Mostra Baixada Encena em 2015, a ocupação do Teatro Glauce Rocha em maio de 2016, a circulação nos SESCs da Região em abril e outubro deste ano; a própria participação dos grupos no Seminário da UNIRIO em 2015 e 2016; a divulgação dos trabalhos dos grupos em rede, um divulgando e promovendo o trabalho do outro.

A proximidade mantém a força dos grupos, um apoiando o outro. A troca de experiências, provoca a “pororoca cultural”, onde os grupos se juntam, ou fazem projetos conjuntos, somando seus valores e vencendo as barreiras. Com este movimento em rede vencemos as dificuldades comuns de nossa região com mais facilidade. Mesmo sem termos um espaço consolidado na grande mídia, aumentamos a nossa capacidade de divulgação e ampliamos a nossa visibilidade. Consideramos de suma importância também a observação do trabalho alheio que faz com que nos cobremos mais e busquemos mais qualidade e aprofundamento na pesquisa de nossa linguagem própria.

Eu percebo que os espetáculos da Cia são realizados tanto em palcos italianos quanto em praças e na rua, como vocês lidam com essa flexibilidade do espaço? Há alguma adaptação do espetáculo?

Os espetáculos, ao serem concebidos, já tem esta característica, estar em qualquer lugar com a mesma energia e proposta de encenação. Entendemos que a quarta parede não deve existir em nenhum espaço.

O grupo possui encontros regulares? O que é feito nesses encontros?

Sim, nos encontramos semanalmente. Falamos sobre agenda, possibilidades de trabalho, assuntos administrativos, leituras, preparação e ensaios.

Durante esses anos de trajetória é perceptível um caminho de uma linguagem, como o grupo observa o desenvolvimento da linguagem proposta?

Observamos uma apropriação maior do que nos propusemos no início e, além disso, a cada novo trabalho, inclusive pelo convite aos diretores, novos atores, etc, estamos sempre acrescentando novos elementos ao trabalho, seja na dramaturgia, no visagismo, na música. A cada trabalho procuramos ampliar nossa pesquisa e nosso olhar sobre nós mesmos, sobre outros grupos e trabalhos, e sobre as histórias que queremos contar no palco.

É possível reconhecer, nos espetáculos do grupo, uma forte influência da literatura de Ariano Suassuna e de sua concepção de cultura popular. Talvez seja interessante apontar a relevância do debate em torno da cultura popular. Debate que, invariavelmente, gira em torno de parâmetros como originalidade e pureza. Gostaria de fazer uma breve reflexão sobre as inúmeras possibilidades de transformação constante da cultura popular. A cultura está em constante mudança. Ela é mutável e impura. Não possui uma delimitação, usamos tênis nike e andamos de canga. Somos alvo de outras culturas dominantes e, entre nós, fazemos também inúmeros cruzamentos. Inevitável abordar a palavra popular e não trazer consigo suas condições de existência pois a todo momento as palavras são apropriadas e, por muitas vezes, o termo “popular” foi apropriado pelos meios de comunicação de massa ou por discursos políticos com o intuito de unificação e ordem. A palavra é um terreno de disputas. Há, no senso comum, uma ideia de que o popular esteja guardado em sua raiz, impassível de mudanças e que precisa ser acessado para assim revelar a identidade nacional intacta de um povo. Talvez seja preciso esgarçar mais essa palavra e encontrá-la em outros lugares, em outros desafios, “nas coisas cotidianas”, como procura a Cia de Arte Popular. Gostaria de apontar, nesse sentido, o meu desejo de seguir acompanhando o trabalho do grupo em suas pesquisas artísticas e em suas buscas incessantes por uma visão mais ampla do termo “popular”.

Ana Kailani Guimarães

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