Companhia Queimados Encena

 Os Seminários de Estudos Teatrais, uma das ações do projeto Artes Cênicas em Extensão, foi espaço no primeiro e no segundo semestre para o que chamamos de residências artísticas. Desta forma cada grupo trazia para um determinado encontro um pouco do seu trabalho através de oficinas ministradas pelos seus integrantes. Isso nos permitiu conhecer as linhas de pesquisa e os processos de criação dos espetáculos, bem como as trajetórias dos grupos. Aqui irei discorrer de maneira breve acerca da Companhia Queimados Encena. Criada no início do ano 2003, surge após uma oficina de teatro ministrada por Leandro Santanna no espaço da Quadra do Bloco Recreativo Roda Quem Pode, para sua primeira peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A peça teve boa repercussão chegou a fazer temporada em Queimados.

É nesse momento que surge um grupo ainda sem sede, mas com o desejo de criar uma identidade cultural para Queimados. Suas apresentações agora ocupam espaços diversos na cidade: sede da associação de moradores, auditórios de escolas, salões paroquiais. Tudo era improvisado e artesanal. Por falta de equipamentos apropriados utilizavam materiais alternativos para compor cenários (tnt), iluminação (latas de alumínio), figurinos e tudo que fosse necessário. O trabalho tinha continuidade mesmo contando com poucos recursos.

Foi apenas no ano de 2007 que a companhia conquistou seu espaço. O Espaço Cultural Queimados Encana, sede da companhia, não é um local somente para ensaios e apresentações, é também o endereço de projetos e ações sócio-culturais que contribuem dando acesso à cultura aos moradores locais e de regiões adjacentes. Sobre esses projetos tratarei mais à diante. O local ainda não é próprio. Aluguel e as demais despesas, incluindo a manutenção do site, são custeadas pelos trabalhos desenvolvidos e pelos integrantes da companhia. O espaço inclui: plateia, camarim, bilheteria, palco 2,70×520, cabine técnica, banheiro. O local é pequeno. As manutenções necessárias são realizadas por seus integrantes que se dividem para manter a sede funcionando para as suas atividades.

No centro cultural são desenvolvidos diversos projetos democratizando o acesso à cultura, fomentando nos moradores o desejo de se tornar público de arte, suas verberações e formas. Ações que envolvem literatura, música, teatro, cinema fazem parte do calendário da companhia.

Na Roda de Leitura Dramatizada, realizada mensalmente, é estudado um autor e sua obra. Os textos são apresentados para os alunos de escolas públicas.

No Sarau Autoral, autores, compositores, poetas e escritores apresentam seus trabalhos.

 O Música Comentada, é uma atividade na qual são convidados para o palco músicos instrumentistas, como Fernando Pereira, violonista, Cristina Braga, harpista, e outros que apresentam seus instrumentos e repertórios. Conversam com a plateia sobre suas experiências e sobre curiosidades que pertencem ao cenário musical.

No Cine Marapicu, são exibidos longas e curtas. Para que este projeto se tornasse possível o grupo recebeu doações de equipamentos do MinC. As exibições gratuitas acontecem mensalmente. Além dessas ações são oferecidas oficinas de teatro para crianças, adolescentes e adultos sendo ministradas pelos membros do grupo que dividem as tarefas para dar conta de todas essas atividades.

 Seus integrantes atuam em outras profissões. Essa é a realidade da maior parte das pessoas que tentam sobreviver de arte. O grupo é formado por Leandro Santanna, fundador e diretor artístico, Uel Barros, Maria Laura Chicanelli, Patrícia Ribeiro, Bryan Carvalho, Camila Rosafé, Mario Viégas, Letícia Moraes, Luciana Laura, Marcella Carvalho, Mary Carvalho e Zezé D’Carvalho. Esses além de atuarem têm suas funções na administração do grupo e da sede.

Ao longo da trajetória, a Queimados Encena tornou-se uma companhia de repertório encenando autores e obras conhecidos tais como: A Bruxinha que era boa, de Maria Clara Machado, Transe, de Ronald Radde, A Revolta do Brinquedos, de Pernambuco de Oliveira, Navalha na Carne, de Plínio Marcos, O Médico a Força, de Moliere, A Mais Forte, de August Strindberg, Alzira Power, de Antônio Bivar, A menina e os fósforos, de Hans Christian Andersen, O auto da compadecida, de Ariano Suassuna, entre outros.

 Ao contrário de alguns grupos que, ao  alcançarem alguma maturidade, optam por uma dramaturgia própria, a companhia por enquanto não se aventurou pelos caminhos da autoria. Não desenvolveram um trabalho dramatúrgico que traduza suas ideias e anseios. É claro que remontar clássicos é sem dúvida uma tarefa difícil. Mas ir pelo ainda desconhecido caminho autoral pode revelar boas surpresas. Um raio x do grupo. Coesão entre texto, elenco, escrita cênica e grupo. Um exemplo prático para o que estou tentando dizer foi  a residência artística que fizeram nos Seminários de Estudos Teatrais. Eles nos propuseram exercícios que exalavam saudosamente a memória de Queimados por recortes das lendas passadas por gerações acerca do município. Lendas que explicariam o nome do município. Cito aqui dois desses relatos:

“Doentes do Mal de Lázaro (hanseníase) vivem em um leprosário na Estrada dos Lazaretos, e quando morrem, como de costume seus corpos e todos os seus pertences são queimados nos fundos do local. ”

“Tropeiros, no caminho da estrada do ouro resolvem fazer parada no vilarejo conhecido como Pouso dos Queimados, lugar com grande produção de laranjas que ocupam quase toda a região sobretudo os morros que ardem em chamas no período da colheita. ”

Guiados por infinitas possibilidades que permeiam a memória de pertencimento a um local, fomos convidados a reescrever, recriar e contar através do teatro não só as memórias da cidade que parece esquecida, mas as memórias de cada integrante do coletivo encontraram espaço e puderam fomentar o imaginário dos que ali estavam cedendo por algumas horas seus ouvidos, sua atenção e imaginação. O olhar sobre o lugar. Temos muito para compartilhar, o mais importante é a possibilidade da troca.

Quando uma história ganha espaço no outro ela já não pertence mais a quem a criou. Pertencerá ao imaginário de quem as recebeu. O teatro é capaz de recontar as histórias. Foi através de um exercício que por várias vezes, fui alcançada, pela mesma sensação. Explicarei melhor: em um determinado momento todos escreviam trechos de situações ou fatos que estavam ligados a história do seu bairro. E de forma aleatória eram trocados esses escritos (sem detalhes de quem havia escrito ou do lugar onde os fatos aconteceram) e uma pessoa lia para a outra pessoa que escrevia os pontos principais da história e os gestos que a pessoa fazia ao contar.

A sensação a que me referi acima e que gostaria de compartilhar nesse texto, foi experimentada quando algumas situações eram recontadas por quem não as conhecia. Ao recontar a história de um colega eu tive a impressão de que, estranhamente, aquela história era também minha. Ao ouvir as histórias recontadas pelos outros participantes, tive a mesma curiosa sensação. Os relatos me tocaram de tal modo que enquanto ganhavam forma na boca do interlocutor, reviraram minhas recordações e, entre muitas variações e sentimentos, cheguei a sentir cheiro de terra molhada pela chuva de verão vindas das lembranças de um período da minha infância.

Recontar é escrever. Dar sua assinatura a algo ou alguma coisa é ser autor ou coautor. Todos nós, por mais ingênuo que pareça, temos palavras que devem ser compartilhadas com o mundo. Traduzidas por letras tatuadas num “papel de pão” que seja! Mas não se deve impedir o “eu autor” de expelir o que permeia o seu imaginário. O exercício da “autoria”. É de construções e afetações como essas que me refiro. O ator, o diretor, a companhia autoral. Somos todos autores.

A resistência desse grupo que insiste em ser fomentador de arte, inseridos (como a maioria) em um contexto político-social que não contribui para viabilizar o acesso à cultura (e outros direitos) de forma democrática. Ações de artistas que batalham por um futuro mais propenso ao equilíbrio da social. Sociedade que está cronicamente desajustada para o lado mais forte.

“Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena no placo e na vida”

Augusto Boal

Sheila Azevedo

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